Ainda na escola, aprendemos que o ser humano passa por diferentes fases do desenvolvimento: nasce, cresce, envelhece e morre.

Entretanto, o envelhecimento é uma conquista relativamente recente da humanidade, pois não faz muito tempo, tínhamos uma expectativa de vida ao nascer cerca de metade da atual por volta do final do século XIX e início do século XX.

Com a melhoria dos hábitos e condições de vida (ex.: moradia, saneamento básico, educação, acesso a alimentos, etc.) e da qualidade da assistência em saúde (ex.: programas preventivos de vacinação), experimentamos uma queda significativa na mortalidade infantil e, consequentemente, mais pessoas passaram a atingir a idade adulta.

O século XX, especialmente no período pós-guerra, testemunhou uma verdadeira explosão demográfica, favorecida pelas melhorias de vida sob todos os aspectos (econômico, social e biológico). E este fenômeno principiou-se nos países mais desenvolvidos, pois foi nestes locais onde as condições favoráveis primeiro se instalaram, proporcionando o envelhecimento das populações de forma lenta e gradual. Em contrapartida, nos países menos desenvolvidos como o Brasil, o fenômeno do crescimento e envelhecimento populacional se deu um pouco mais tarde, mas em ritmo muito mais acelerado e, por conseguinte, com menor tempo de adaptação.

Composta cada vez mais por indivíduos idosos, as populações mudaram seu perfil epidemiológico e, lentamente, as doenças ditas crônico-degenerativas (ex.: diabetes, hipertensão, câncer, etc.) passaram a predominar, em detrimento das doenças infectocontagiosas (ex.: peste, etc.).

Sob o ponto de vista do indivíduo, o processo de envelhecimento pode ser compreendido pelo acúmulo de mudanças que nossos órgãos e sistemas sofrem ao longo das décadas, e que resultam em redução progressiva da nossa capacidade de enfrentar e resistir aos desafios impostos ao curso de nossas vidas, sejam eles externos (ex.: ambientais, socioeconômicos) ou internos (ex.: doenças).

Um paralelo interessante seria a comparação com um tanque de combustível, que vamos enchendo em nossas primeiras décadas de vida e gastando pouco, resultando em um saldo positivo. A partir de determinado momento, algo por volta da 3a a 4a década de vida, essa relação começa lentamente a se inverter, e passamos a gastar mais do que conseguimos repor, deixando-nos mais vulneráveis para enfrentar situações extremas, até o ponto em que entramos na “reserva” do tanque, ou seja, quando até os menores desafios em nosso caminho representam obstáculos quase que intransponíveis.

Apesar de inexorável para todos nós, o envelhecimento é um processo extremamente heterogêneo, no qual cada indivíduo o experimenta em forma, velocidade e intensidade diferentes, ainda que dentro do mesmo contexto familiar e/ou socioambiental. A longevidade e qualidade de vida estão muito mais relacionadas com os comportamentos e hábitos de vida do que com a carga genética, o que proporciona uma imensa gama de possibilidades de moldá-las através de intervenções tanto em nível individual como coletivo.

Também é importante atentarmos que o processo “natural” de envelhecimento guarda íntima relação com os problemas de saúde que desenvolvemos ao longo da vida. E a ocorrência de doenças, agudas ou crônicas, pode impactar como envelhecemos.

 

Em suma, sob o ponto de vista macroscópico, o envelhecimento deve ser encarado como uma das maiores conquistas recentes da humanidade, mas que requer ampla discussão sobre a necessidade de organização e planejamento, em todas as suas dimensões (biológica, psicológica, sociocultural, política e econômica), de tal modo que sua ocorrência seja harmônica e bem sucedida.

Já sob a ótica do indivíduo, este processo não é imutável e, pelo contrário, desde as fases mais tenras de nossas vidas, medidas preventivas podem ter forte impacto na forma como envelheceremos e vale lembrar que nunca é tarde para instituirmos tais mudanças.

 

Tarso Lameri Mosci
SBGG-RJ

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